sexta-feira, 3 de abril de 2009

1964 - Golpe, contragolpe ou revolução?*




A ditadura no Brasil foi o resultado do embate de aspirações de vários setores e partidos sócio-políticos do Brasil, que pretendiam e ameaçavam impor suas ideologias e regimes. Foi um período de intensas lutas, todas elas “com tendência ao radicalismo e marcada por uma concepção de política de assalto ao poder". Foi uma colisão de perspectivas e objetivos.


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A resposta parece estar nesta pergunta. Apesar de a questão ser considerada ainda obscura, e mesmo depois de transcorridos 45 anos desde a instauração do regime militar no Brasil, eu arrisco dizer que o artigo de Lilia Diniz, baseado nas declarações de especialistas da História brasileira, colhidas de um debate promovido pelo Observatório da Imprensa, dá ao leitor a impressão de que o regime foi uma mescla das três coisas. Foi golpe, contragolpe e revolução.


A ditadura no Brasil foi o resultado do embate de aspirações de vários setores e partidos sócio-políticos do Brasil, que pretendiam e ameaçavam impor suas ideologias e regimes. Foi um período de intensas lutas, todas elas “com tendência ao radicalismo e marcada por uma concepção de política de assalto ao poder". Foi uma colisão de perspectivas e objetivos.


Se as elites políticas da época desprezavam a democracia – buscando o totalitarismo, sob influência da Revolução Cubana de 1959, grupos de esquerda que beberam da mesma fonte, tinham outra intenção política: o socialismo. Aspiravam aos ditames comunistas. Ao contrário dos grupos políticos de elite, que queriam impedir a qualquer custo que o Brasil se tornasse o quintal da União Soviética. Portanto, a ditadura militar teria surgido como estratégia de contragolpe aos setores da esquerda política no Brasil que já em 61, três anos antes do fatídico ano de 64, intentavam a tomada do poder e o estabelecimento de diretrizes socialista para o plano de governo brasileiro. 

O doutor em História pela Universidade de Paris-Sobborne, Ronaldo Costa Couto, lembrou, inclusive, que a “política salvacionista das Forças Armadas vem de longe”. O debelar do Movimento Tenentista e a deposição do ex-presidente Getúlio Vargas (político de características fascistas: paternalista e populista) são exemplos históricos recentes e expressivos que traduzem com muita clareza estas políticas de combate do setor militar aos insurgentes de propostas contrárias aos ideais deste grupo. O próprio episódio da Proclamação da República, em 1889, nos permite fazer uma ponte com o cenário em que se deu a Ditadura e correlacionar as variantes nos dois momentos.

Insatisfeitos com a representatividade do Partido Republicano e percebendo que não conseguiriam alcançar suas metas políticas pelas vias legais - através do voto, os republicanos decidiram concretizar seus planos mediante um golpe militar. Além disso, a intensa propaganda criada pelos republicanos para tentar persuadir a população sobre a necessidade de transformação política – de regime político, não se espraiou pelo território brasileiro, como queriam. O que os levou a pedir respaldo á classe armada, convencendo-a de que não deveria se contentar com a situação militar do governo do Império. Inclusive, Marechal Deodoro da Fonseca, conclamado pelos militares para encabeçar o golpe, foi dissuadido de suas idéias simpatizantes á monarquia para se enquadrar aos planos do movimento. 


O golpe de 1964 se embasou na mesma estratégia: mobilização ideológica; alienação. Contou com o amplo apoio da sociedade civil e da imprensa, que não representou na época qualquer resistência ou oposição, no início.


Segundo o historiador Marco Antonio Villa, "não foi uma quartelada típica da América Latina", pois, “parte da imprensa, tecnocratas e a classe média estavam de acordo com a tomada de poder”. Até o líder sindical mais popular do Brasil, hoje presidente, Luís Inácio Lula da Silva – julgava, na época, o movimento benéfico para o país. Só mais tarde, com o agravamento das medidas cerceadoras e da violência do regime militar, foi que o governo perdeu a confiança e o apoio antes angariados. A grande imprensa, ao contrário dos veículos menores que se reportaram, desde o começo, contra a instauração do regime de exceção, emitindo opiniões contrárias e ajudando a difundir informações criticas só se recuperou do relapso quando se viu coagida pela censura e pela Lei de Imprensa cujos artigos e regimentos, remanescem e se arrastam até os dias de hoje.

O jornalismo brasileiro que outrora colaborou para a tomada de poder pelos militares, aguarda agora a decisão do Supremo Tribunal Federal, por vias democráticas, a exclusão e/ou substituição de artigos estipulados na Lei de Imprensa durante a ditadura e, também, resolução sobre a exigência de diploma para a profissão.

Ironia. Pois, a atividade jornalística e seu instrumento – da livre expressão, tenta se livrar da teia que, ludibriada, ajudou a construir para depois se encurralar. Será que isto explica o silêncio de grande parte das mídias no ano em que a ditadura faz aniversário de 45 anos? E o que dizer da sub-notificação dos 200 anos de imprensa, completados no ano que se passou? Não há o que ser comemorado? É o que podemos subentender? A imprensa seus intelectuais estiveram á venda durante todo este tempo, enquanto a ‘revolução’ jornalística e política não chegava? Parece que sim.

Politicamente, é possível enxergar um teor revolucionário no processo ditatorial de 64, ou seja, a terceira (e boa) designação: esses 21 anos despóticos foram os últimos da história política do Brasil. Foi uma revolução porque deste processo, de medidas extremadas, de limitação de direitos, de controle de expressão artística, violência, totalitarismo político e radicalismo ideológicos, somados a outros fatores, o país conseguiu superar, parcialmente, a submissão da política oligárquica de ‘uns’ para ‘muitos’. A sociedade brasileira encontrou seu poder de emancipação. O cidadão passou a entender sua importância e seu poder de decisão política. Passou a ser pleno, livre e soberano com a transição para a democracia. Acordou de um estado letárgico. A ditadura incitou o desejo de soberania no corpo civil.

O jornalismo por sua vez, também, tirou uma grande lição do processo. As decisões que estão por vir do Poder Jurídico com intuito de desobstruir a atuação do jornalista no país, e dar mais respaldo a sua atividade, junto ao advento da telemática, do jornalismo digital promovendo a diversificação e ampliação das formas de trocas simbólicas entre os indivíduos, só têm a contribuir. 


Estas mudanças não só podem como estão promovendo a revolução que o nosso meio tanto precisava. Nossa revolução política. Pois o discurso agora está descentralizado, e todos têm potencial para serem produtores de conteúdo e emissores de opinião. A imprensa não corre mais o risco de ‘entender mal’ o teor ideológico dos assuntos que pautam a sociedade, portanto, não correm o risco de irem para o lado ‘chumbo’ da história. Caso a imprensa ou qualquer outro meio jornalístico erre, hoje, terão, com certeza, inúmeras e não só algumas pessoas que pedirão a retificação do erro, apontando o caminho certo.

Salvas a democracia e a revolução tecnológica!


O sonho ainda não acabou..


* texto baseado no artigo de Lilia Diniz publicado em Observatório da Imprensa

Um comentário:

Paulo disse...

por ser criança, eu nao conseguia entender o que se passava a minha volta em 1968. Agora que sou adulto, consigo exercer minha cidadania, atraves do voto. nao posso porem deixar de pensar da frase do Millor em 1992 : SERÁ QUE DEMOCRACIA É ISsO??