domingo, 29 de março de 2009

A Palestina e o estado israelense




Como lembrou a cientista política de origem judaica, Helena Salém, a rixa entre árabes e judeus faz parte de "um movimento historicamente novo", que tem a ver com  fatores políticos, sociais e econômicos bastante precisos. Pode-se afirmar que a disputa entre árabes e judeus começa com o advento do sionismo e a implantação sionista na Palestina".

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Norman Finkelstein, intelectual judeu americano, disse em um artigo, este ano que “o desafio é conseguir ver a verdade por trás das mentiras”. Os apressados concluirão que se trata de mais um judeu apregoando contra palestinos. Mas, na verdade, Finkelstein está atirando a crítica para seus conterrâneos. O intelectual é um judeu americano indignado com a política intransigente dos judeus israelenses e seus aliados. É um judeu favorável a Palestina, e as mentiras a que se refere são aquelas proferidas pelo Estado de Israel, que segundo ele, para justificar, perante a opinião pública mundial, as decisões unilaterais, cerceadoras e violentas contra o povo da Palestina, com quem os israelenses dividem um território desde 1947.


Foi se baseando nesta declaração de Norman Finkelstein – “a verdade por trás das mentiras” que Kaled Amer, da Federação das Entidades Árabes do Brasil e Tânia Abdallha, filha de palestinos, abriram palestra na Faculdade de Ciências Humanas da Fundação Mineira de Educação e Cultura (Universidade Fumec), no dia 17 de março, para explanar sobre o contexto do conflito e como é viver confinado na Faixa de Gaza e Cisjordânia.Amer e Abdallah denunciaram a atual intervenção israelense em território árabe, mostrando imagens de power point de muros e check points construídas pelos israelenses, e que dividem várias cidades árabes ao meio. "A Palestina se transformou em ilhotas de moradia. Parece um queijo suíço", denunciaram os palestrante, chamando atenção para o fato de que a soberania do país está sob constante ameaça e violação diante das intervenções israelense.



Os muros, construídos por Israel sob o pretexto da necessidade de salvaguardar a segurança nacional dos judeus, isolam famílias e comunidades palestinas, desarticulando a economia do povo dos árabes e exime o direito de soberania do país, que não é reconhecido pelas Organizações das Nações Unidas (ONU). Para migrar de um espaço a outro, os palestinos são obrigados a passarem por check points - portões de acesso controlados por judeus e que são verdadeiras guarnições militares – por onde devem cidadãos palestinos precisam se submeter a uma revista, "muitas vezes ofensiva", se quiserem se deslocar pelo país, conforme lembraram os palestinos.

Dizer que há segregação étnica no território que deveria ser só de palestinos é redundância. Existem, inclusive, rodovias em território palestino em que somente judeus podem circular. Automóveis palestinos têm suas placas diferenciadas, e muito não gozam do direito ‘do ir e vir’. Quem está em Gaza, fica retido por tempo indeterminado em Gaza. Em Cisjordânia o dilema é o mesmo. Assim, 4,5 milhões de palestinos vivem. Circunscritos em uma terra bloqueada, sitiada, segregada, sem muitos direitos, serviços e liberdade.

A fronteira com o Egito, onde os palestinos buscam suprimentos e realizam escambo e trocas comerciais, adquirindo desde colchões até carne e combustível, tem períodos de abertura extremamente racionados, o que compromete o abastecimento da população palestina, que depende inclusive, do diesel para ter acesso a água potável. A água só sai da torneira com eletricidade. E a eletricidade depende de combustível. Boicote estipulado egípcio Hosni Mubarak, em parceria com autoridades israelenses e também unilateralmente, em episódios da política regional.

Segundo os palestrantes, as plantações palestinas também estão comprometidas. As Oliveiras, símbolo nacional da Palestina, praticamente sumiram do mapa, em função de expropriações, o que vem acelerando o processo de desertificações de algumas áreas. Fotos de oliveiras incendiadas e extraídas em várias partes do território, onde foram construídas colonias israelenses, foram exibidas por Amer e Abdallha.

Cidades palestinas teriam sido implodidas e campos agrícolas palestinos isolados para a construção dessas novas cidades judias em território palestino, cada vez mais reduzido. Em 2004, a pacifista judia Rachel Corrie, de 23 anos, morreu durante um ato de protesto envolvendo um trator israelense, que atuava na demolição de casas palestinas em Rafah, na Faixa de Gaza. Lá foi construído o polêmico muro de Israel.

As sanções econômicas promovidas por Israel, Estados Unidos e União Européia a Palestina também foi lembradas pelos palestrantes como um agravante para a crise humanitária que o país vive atualmente. A economia que tenta remanescer está se pulverizando, e o racionamento de comida, suprimento médico, combustível e materiais de construção para soerguer a infra-estrutura local destruída, retomando assim atividades comerciais estagnadas, se agrava.

Os portos estão fechados para os palestinos, e suas produções proibidas de serem escoadas.
Universidades e prédios públicos foram destruídos. Blogs e páginas eletrônicas de pessoas ligadas á Palestina notificaram casos em que crianças atingidas pelos últimos bombardeios israelenses estavam sendo operadas sem anestésicos. Algumas delas tiveram seus membros amputados sem qualquer suplemento medicamentoso. 

Mais do que isso, armas químicas, letais, como as bombas de fósforo branco (proibidas pelas Convenções de Genebra) - foram utilizados na última ofensiva. Civis, inocentes definharam horas a fio com químicos corrosivos no corpo. “É uma limpeza étnica, que está acontecendo na Palestina", disse Tânia Abdallha.  

Não sou anti-semita, mas fatos são fatos. Um povo está sendo massacrado, dizimado, e com o consentimento internacional, ainda que anônimos civis de várias nacionalidades manifestem sua contrariedade e revolta com o que está acontecendo.

Porque todos acham absurda a declaração de um bispo britânico, ligado a corte do Papa Bento XVI, que negava a existência do Holocausto, e poucas autoridades públicas de importância internacional não se revoltam publicamente contra o massacre de palestinos? É tão absurdo abnegar o genocídio de palestinos quanto é negar a limpeza étnica promovida por Hitler durante o nazismo. São crimes e não existe espaço para contrabalancear versões, argumentos e possíveis justificativas.

Israel não faz concessões nem muito menos respeita as leis internacionais, inclusive aquelas estipuladas pela Corte Internacional de Justiça, órgão máximo da ONU, que estabeleceu que os judeus não têm o direito de ocupar nem um metro quadrado da Cisjordânia, nem de Gaza. Nem tampouco, tem qualquer direito sobre Jerusalém e sobre os bairros árabes. As colônias judias que há na Cisjordânia são ilegais. É como diz Norman Finkelstein: “os fatos mostram que nos últimos mais de vinte e tantos anos toda a comunidade internacional procura um modo de resolver o conflito das fronteiras de 1967, com solução justa para a questão dos refugiados (palestinos). Será que 164 Estados-membros da ONU estão sempre errados, e certos e pacificistas seriam só EUA, Israel, Nauru, Palau, Micronésia, as ilhas Marshall e a Austrália? Quem é pacifista? Quem trabalha contra a paz?”.

Porque, judeus, um povo que experimentou durante séculos a face da discriminação, da exclusão, do não pertencimento, da dizimação de seu povo, que sofreu com expatriações, infringe, hoje, a mesma guerra insana? A atuação isolada do Hamas (grupo minoritário radical) no controle político da Palestina justifica os mega-atômicos ataques israelenses contra o povo palestino? Se há problemas de militâncias radicais palestinas contra Israel, que este problema seja combalido de foram cirúrgica não de forma generalizada contra civis inocentes da Palestina. 


Até que ponto Israel está interessado em usar sua tecnologia bélica  para promover ações cirúrgicas contra rebeldes palestinos, sem impingir uma guera sangrenta e desigual contra civis palestinos, evitando assim um ciclo vicioso de erros e revolta.

Os Israelenses podiam contribuir com seu povo e o mundo, respondendo de forma diferente aos insurgentes de grupos territoristas, mostrando que Israel está tentando ajudar o povo palestino, desafogando fronteiras, estimulando pontes e diálogos; criando parcerias e oportunidades de desenvolvimento regional. Não incutindo mais dor, sofrimento, ira e rancor a região.

Se Israel de fato quisesse e tivesse intenções humanitárias, e não meramente bélicas (imperialista) econômicas e religiosas, poderia construir uma política internacional mais arguta, que buscasse o diálogo e a aproximação com o palestino. Com propostas que visassem á preservação das riquezas culturais e geográficas da região, economizando vidas e promovendo progresso em ambos os lados.

No entanto, são os interesses políticos, inclusive de Israel, e não diferenças de ordem religiosa e pseudo-raciais, como muitos creem, que impedem que esse ciclo do ódio seja interrompido e a paz construída na região. 

Como lembrou a cientista política de origem judaica, Helena Salém, essa rixa entre árabes e judeus faz parte de "um movimento historicamente novo", que tem a ver com  fatores políticos, sociais e econômicos bastante precisos. Pode-se afirmar que a disputa entre árabes e judeus começa com o advento do sionismo e a implantação sionista na Palestina".

Extremismo dos dois lados – homens bomba de um lado e o sionismo de outro devem ser cessados e combalidos, por israelenses e palestinos e por toda a comunidade internacional. A convivência, entre os dois povos, estimulada, e, as gerações mais novas, curtidas em um ambiente menos explosivo. Mentalidades de tolerância e sincretismo devem ser cultivadas. A lógica tribal do olho por olho, dente por dente, enfim, deve ser rompida. De vez. Por que do contrário, tudo será um eterno derramamento de sangue em terra supostamente sagrada.



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