
O baianeiro e sua condição de margem na sociedade mineira é o emblema da literatura de Guimarães Rosa que já pregava que Minas Gerais são muitas. No mínimo oito. É a ‘Minas’ geratriz, do ouro; é a Mata cismontana; é o Sul, cafeeiro, de terra-roxa e colinas europeias; é o Triângulo; o Oeste, fazendeiro e político; o Norte; o Centro, do vale do rio das Velhas, calcário, ameno; e o Noroeste, dos chapadões e dos campos-gerais.
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Claro, mineiro é aquele que nasce no território das Minas Gerais, que são muitas, como traçou Guimarães Rosa na sua literatura. Mas existem aqueles que nascem neste estado brasileiro, que não se intitula assim: mineiro. São os baianeiros, que vivem em um entre-lugar, um norte sertanejo, da porção Gerais do estado, bem distinto da cartografia e da história das cidades que viveram o ciclo do ouro, nas Minas geratrizes.
Esse personagem etnográfico possante, se intitula apenas norte-mineiro, apesar de ter recebido a alcunha de baianeiro, por serem oriundos de terras que fazem divisa com a Bahia. A questão segundo o antropólogo João Batista Costa, é que os norte-mineiros ou baineiros, não se reconhecem nem mineiros, nem baianos, e por esta razão são uma espécie de ser não-geográfico.
Vivem nas áreas não-estruturadas do estado, na vastidão do território sertanejo, nos Gerais – quente e pastoril. Um lugar não reconhecido e enunciado pela história convencional, das elites, que obscurece esta região das Minas Gerais. Possuem características culturais diferentes daquilo que se convencionou como cultura mineira.
Os baianos não os vêem como mineiros, e os mineiros, por sua vez, os julgam: baianos (pela característica nordestina). Esta confusão de nomenclatura que parece ser somente um problema de ordem designativa transcende para questões antropológicas importantes, e nos obriga a repensar e re-engendrarmos nossa concepção sobre o que é ‘Minas Gerais’.
O baianeiro e sua condição de margem na sociedade mineira é o emblema da literatura de Guimarães Rosa que já pregava que Minas Gerais são muitas. No mínimo oito. É a ‘Minas’ geratriz, do ouro; é a Mata cismontana; é o Sul, cafeeiro, de terra-roxa e colinas europeias; é o Triângulo; o Oeste, fazendeiro e político; o Norte; o Centro, do vale do rio das Velhas, calcário, ameno; e o Noroeste, dos chapadões e dos campos-gerais. Mas, Minas Gerais como é reconhecida, legitima somente as Minas Geratrizes, que tingem o nome do estado.
É esta realidade montanhosa, reluzente e portuguesa, que obscurece todas as outras regiões do estado e suas peculiaridades geográficos e culturais, que os baianeiros, em uma espécie de exercício projetivo, não se vêem refletidos. Não se identificam frente a este universo mineiro-europeu, montanhoso e fértil. O baianeiro cerceado a seu espaço, isolado e esquecido, só descobre sua identidade quando se desloca para outras regiões, dentro ou fora do estado. Só entendem quem são quando vivenciam a realidade alheia e nela não veem semelhantes.
No plano macro – no âmbito nacional -, os baianeiros também se vêem excluídos, pois, sua origem, sua etnia e seus hábitos culturais embasados no signo do sertão, da mestiçagem e da cultura folclórica não são os tipos antropológicos ascendidos e legitimados pela sociedade de um modo geral. Os valores hegemônicos que norteiam o modos operandi da sociedade brasileira, nos primórdios e atualmente - sempre foram produtos de uma formação cultural ocidental européia, apesar da nossa essência mestiça. Os parâmetros que hoje temos como perfil etnográfico ideal, desprezou o não-branco, o selvagem. Privilegiou, recortou, impôs uma realidade estrangeira ao nosso território e a nossa cultura, que se perfez, depois, sincretista.
Os baianeiros, gente cafuza e do sertão que se originou da miscigenação, do negro fugido com o índio nos idos século XVII e XVIII, donos de culturalismos peculiares – é a antinomia da figura do navegador europeu, que na realidade brasileira, se concretizou na figura do homem litorâneo – bandeirante, desbravador, letrado e próspero. Que propalou ao longo da nossa história os discursos e representações que hoje conhecemos, e podemos desmitificar.
É por causa do enraizamento deste discurso do colonizador – centro propagador de idéias – que foi possível incutir um pensamento dominante no imaginário social, que preza os valores do branco europeu e destituí, empobrece tudo que destoa do seu modelo. O sertão é o oposto do litorâneo. O branco do preto; do mestiço. Se “às minas foram jogadas todas as luzes, por sua civilização vinculada ao ouro, por sua cultura urbana e por sua identidade tornada hegemônica; aos gerais e suas especificidades obscurecidas foram vinculadas à barbárie, à natureza e à poluição, pela mistura de culturas aí vivenciadas”, escreveu o antropólogo, João Batista Costa, doutor pela Universidade de Brasília (UnB).
Portanto, os baianeiros são duplamente excluídos: entregues ás margens (tanto na esfera estadual como nacional). Se aqui, lemos Minas, somente como um lugar de montanhas escarpadas e vales férteis e profundos, de ínvios caminhos, os norte-mineiros se veem nas chapadas estéreis, espaçadas, de amplos horizontes. Os norte-mineiros, veem os Gerais – o sertão; seu ‘entre-lugar’ uma fronteira social indefinida no seu imaginário. Uma região mental entre Minas e Bahia.
“Um sujeito, uma gente, que se quer inteira, mas que não se realiza como tal coletivamente”. Por fim, enunciar que não se é mineiro, nem baineiro, nem baiano e sim norte-mineiro, é uma tentativa de se reafirmar frente á marginalização que sofrem e a confusão que sentem no campo semântico á nível de estado e país. Querem descobrir e definir de que Minas ou Gerais são, e serem respeitados por seu regionalismo distinto, seu lugar social.
*COSTA, JOÃO BATISTA DE A. Fronteira regional no Brasil: o entre-lugar da identidade do território baianeiros em Minas Gerais. Sociedade e Cultura, V.5, n˚ 1, Jane/jun. 2002, p. 53-64
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